Entre Céus e Desertos: A Travessia dos Andes até Machu Picchu
Tudo começou quando o avião decolou em direção ao norte do Chile. Lá de cima, as nuvens se dissipavam revelando um tapete de montanhas áridas — o prelúdio do que me aguardava no Deserto do Atacama. Ao pousar, o ar seco e o céu intensamente azul pareciam anunciar outro mundo.
Em San Pedro de Atacama, as ruas de terra, o cheiro de poeira e adobe e o silêncio quase sagrado das montanhas criavam uma atmosfera hipnótica. O deserto, o mais seco do planeta, é um espetáculo que muda a cada hora do dia. Vi o pôr do sol no Valle de la Luna tingir o horizonte de tons dourados e rosados, enquanto as sombras das cordilheiras se estendiam lentamente pelo solo rachado.
À noite, o passeio astronômico revelou um dos céus mais impressionantes da Terra. Sob um manto de estrelas tão densas que pareciam palpáveis, pude observar Saturno, Júpiter e constelações inteiras com nitidez absoluta. A sensação era de estar diante do universo sem filtros — pequeno, mas completamente desperto.
Da imensidão árida do Chile, segui rumo à Bolívia por estradas que cortam paisagens quase surreais. Montanhas coloridas, lagoas habitadas por flamingos e vulcões nevados marcaram a travessia até o Salar de Uyuni — um espelho branco infinito. No amanhecer, o reflexo do céu na superfície salgada apagava a linha do horizonte. Caminhar ali era como flutuar entre dois mundos: o real e o imaginário.
Deixando o altiplano boliviano, avancei ao Peru, onde as montanhas voltam a vestir verde. O trem serpenteando pelos vales até Machu Picchu foi um retorno ao tempo dos incas. Subir as escadarias de pedra e ver a cidadela emergir entre as nuvens foi um dos momentos mais intensos da jornada — uma mistura de reverência e gratidão.
Ainda em território peruano, a Laguna Humantay coroou a viagem com sua cor turquesa irreal, escondida entre picos nevados. O esforço da subida foi recompensado por uma paisagem que parece pintada à mão, refletindo a pureza das águas glaciais.
Voltar a São Paulo por terra foi como costurar todas essas paisagens na memória: o deserto, o sal, as ruínas, as montanhas e os rostos de cada lugar. Uma travessia não apenas geográfica, mas também interior — onde cada fronteira cruzada parecia abrir um novo horizonte dentro de mim.